
Meu objetivo não é tornar isso aqui um diário, mas, preciso desabafar.
Estando eu no ônibus, recebo uma seqüência de porrada, não física, mas sim verbal. Portanto não fiquei com nada quebrado, nada roxo, porém me veio uma pancada de pensamentos martelando em minha cabeça.
Tinham duas meninas, estudantes - ao menos estavam fardadas - conversando, estavam comentando sobre um menino preto, presumo que colega delas, mas não qualquer preto, e sim um 'tifum', uma delas já tinha até feito um pagodinho em homenagem ao colega: 'frango preto da macumba, frango preto da macumba' (dá para acreditar?). Mas isto só foi um tapa perto do que veio depois: a "compositora" resolveu comentar o quanto ela era bonita porque não se parecia com a maioria de seus familiares, pois, suas primas tinham cabelo 'duro igual a assolam', depois de falar isto ela "pensou" mais um pouco e se corrigiu, 'assolam não, porque ele ainda é macio'. Pronto, me senti nocauteada. Ah, vale ressaltar que eram duas meninas negras, de cabelo cacheado.
Pós isso, o que mais me doeu foi admitir que essas meninas não são exceções, que esse racismo esta enraizado, não só nesta ou naquela pessoa, mas em todos nós; é duro percebê-lo em mim. Mesmo assim, me alegra notar que eu, como muitas pessoas (muitas mesmo!), ao contrário das minhas agressoras, tentamos nos livrar deste mal que persiste em sobreviver (com outros tanto alimentando, racistas e alienados, não poderia ser diferente), com um árduo policiamento de cada atitude e pensamento.
Apesar de ouvir alienações por toda parte, é notável que a conscientização negra vem crescendo de uma forma satisfatória. Assim, acredito numa conscientização geral da negritude, tanto porque, nenhum povo foi oprimido indefinidamente.
"A guerra me parece inevitável (...)/ se a população se revoltar grite por socorro/ (...) quando o sangue bater em sua porta espero que você entenda/ e descubra que ser preto e pobre é foda./ Se uma guerra amanhã estalar/ sei de que lado eu vou estar!"
Quando esse conhecimento acontecer, quando conseguirmos nos organizar, já que a passividade não está dando certo ( e quem quer que dê?), faço minha as palavras de MV Bill, na música do parágrafo acima, "a guerra me parece inevitável". Desta maneira, quando Zumbi descer o morro, no dia da cobrança da dívida, que, com certeza, continua viva, "sei de que lado vou estar!”.